Seria cômico se não fosse grave Tuesday, Jan 29 2008 

Moro na QI 25 do Guará II, uma cidade a 15 minutos do Plano Piloto de Brasília. O Guará é uma cidade considerada de classe média e média-alta. Em frente ao prédio onde moro há um Fusca sem condições de circular e com dois grandes amassados no capô e no teto, onde água se acumula desde que começaram as chuvas. O dono do veículo – morador do prédio - já foi procurado pela administração do condomínio e disse que não retirará o carro.

Eu liguei para a Vigilância Sanitária (3325 4811) que me transferiu para a Vigilância Ambiental (3344 1767) que me transferiu para seu escritório no Guará (3381 0508). Minha reclamação de acúmulo de água foi registrada como uma denúncia e eles farão uma visita no local para colocar remédio na poça de água acumulada no carro. Entretanto, a Vigilância Ambiental não pode notificar, autuar, multar ou obrigar o proprietário do carro a retirar o veículo.

Liguei tb para o DETRAN (154) que me transferiu para o 190, que me transferiu para o SERPOL (serviço de fiscalização de trânsito do DETRAN – DF). De acordo com o atendente, não há lei que obrigue o proprietário do veículo a retirá-lo do estacionamento, mesmo o carro estando em terríveis condições. A justificativa é que o carro não está circulando em via pública. A lei de transito apenas se aplica a veículos em circulação. 

Conclusão, de acordo com os órgãos que eu consultei, o proprietário do veículo não pode ser responsabilizado pelo veículo, seu estado de conservação, sua ocupação de área pública para depósito de ferro-velho ou por colocar em risco a saúde da população da área. A responsabilidade por cuidar da água acumulada e possível criadouro de mosquitos transmissores de doneças é da Vigilância Ambiental que, por sua vez, tb não pode responsabilizar o proprietário do veículo.

Estou incomodado há semanas e resolvi procurar os órgãos responsáveis porque não concordo que as responsabilidades sejám transferidas para outrém. Isso é ERRADO! Esse bendito vizinho transferiu para o Estado a responsabilidade por controlar um problema de saúde pública causado por ele (o vizinho) e ninguém pode obrigá-lo a resolver o problema.

Pior do que isso… o morador do primeiro andar, cuja varanda e duas janelas estão a menos de 4 metros das poças de água – e possíveis criadouros do Aedis Egypt – nunca se importou com o fato ou percebeu que há algum risco.

Falta de educação + paternalismo do Estado = mais falta de educação e incivilidade e falta de cidadania.

“Que país é esse?”

Marcelo Elias. 

Breve comentário Saturday, Oct 13 2007 

Que saudade de escrever e processar o que acontece à minha volta.

É verdadeiramente muito desgastante essa história de navegar e de blogar. Qualquer pesquisinha ou leitura na internet consome horas, pq uma coisa leva a outra e cada vez mais encontramos algo mais interessante e o tempo passa rapidamente.

Alimentar o blog, então… haja tempo. A inspiração vem sem o computador. Trabalho com computador o tempo todo ligado, mas para dar aulas. Acabou a aula, a escola via fechar, tenho de desligar o computador. Em casa… segundo turno, mais trabalho de casa e preparação de aula… ufa!

Não há de ser nada…

Qq dia desses volto com algo mais produtivo.

Marcelo Elias.

Brasília, 7 de setembro de 2007. Friday, Sep 7 2007 

Brasília, 7 de setembro de 2007, Dia da Proclamação da Independência do Brasil. Talvez não haja muito o que se comemorar… pelo que eu me lembro das minhas aulas de História, a independência do Brasil foi proclamada por D. Pedro I e aceita pelos colonizadores depois de a colônia pagar 2 milhões de libras esterlinas à Coroa Portuguesa. De onde veio o dinheiro? Empréstimo internacional… o governo Inglês emprestou a grana para o Brasil.

Não vejo nosso país muito independente, não. Viramos colônia de outros países mais desenvolvidos, apesar de termos uma cultura rica e bela. Quando começamos a atingir uma independência macro-econômica, fazemos isso em época de globalização, quando todas as economias do mundo estão irremediavelmente interligadas. Assim, o problema dos caloteiros mutuários americanos afeta nossa bolsa de valores.  Eu sei, eu sei… minha análise econo-socio-historico-cultural é superficial e simplista, mas escrevi só para introduzir o assunto que realmente me interessa agora: como os jovens de classes média-alta vêem o 7 de Setembro.

Ontem, em três aulas para turma de adolescentes, fiz um experimento e resolvi falar sobre símbolos nacionais, independência e patriotismo. Cinqüenta e sete jovens, entre 13 e 19 anos passaram pelo laboratório… quero dizer, por minha sala de aula. Meu objetivo principal era iniciar uma discussão acerca dos assuntos e, obviamente, fazer os alunos utilizarem a língua inglesa como ferramenta para essa discussão. No longo e tortuoso processo educacional e de aprendizagem de uma língua, momentos de autêntica expressão oral têm efeito sobre ambas atividades. 

O primeiro resultado que observei em todas as turmas foi o fato de que apenas quatro alunos disseram que em suas escolas o assunto Independência do Brasil foi abordado. Em apenas uma escola, o La Salle, na 906 sul, houve um momento cívico. A aluna que lá estuda disse que “ninguém estava nem aí”. Bom, acho que pelo menos a escola fez alguma coisa. 

Na primeira turma, de nível intermediário/avançado, os sujeitos têm entre 14 e 17 anos e são todos matriculados no ensino médio de escolas privadas em Brasília. Os alunos entraram em sala ao som do Hino Nacional Brasileiro executado pelo conjunto musical Casa de Farinha. Uma batida brasileiríssima com as belas vozes femininas do conjunto. Todos reconheceram a música – ufa! Primeiro teste ok. Projetei no quadro uma bela foto em close de um rosto feminino pintado de verde, com um losango amarelo ao redor de um olho profundamente azul.  

Em seguida projetei uma frase a que os alunos tinham de concordar ou não e justificar sua resposta: “Conheço os símbolos nacionais, entendo-os e respeito-os.” Meu primeiro choque da tarde… olhos de interrogação e a pergunta oculta… quais são os símbolos nacionais? Depois disso, o que eu esperava aconteceu, nenhum aluno se importava verdadeiramente com a data, nenhum iria à parada militar na Esplanada, nenhum aluno participava regularmente de qualquer ato cívico. Outra constatação esperada foi o fato de que os alunos vêem o patriotismo como uma característica importante de povos de países de primeiro mundo, mas esses mesmos alunos e suas famílias não demonstram qualquer sentimento patriótico em seu cotidiano, só de quatro em quatro anos, 2006, 2002, 1998, 1994… Esse fenômeno acontecerá novamente em 2010. 

Segunda turma, todos ensino fundamental, todos escolas privadas, todos entre 12 ou 13 anos, mas um aluno se destacou. Ao ouvir a versão Casa de Farinha do hino, o rapaz surtou, deu chilique, pulou na cadeira, fez cara feia, xingou. Literalmente ele fez tudo isso. Esse aluno é amante da música clássica e repudia qualquer, verdadeiramente qualquer estilo popular de música. MPB, axé, hip-hop, funk, rock (todos), rap, disco, trance ou qualquer outro estilo popular é lixo para esse rapaz. Bom, o material para a discussão estava ali posto diante de mim. Completamente inesperado, mas riquíssimo. Os outros alunos se revoltaram com a reação do colega, afinal a expressão musical deve ser livre e, segundo eles – e eu concordo – a versão popular do hino torna-o muito mais próximo da população. 

Falamos de diferenças, da necessidade de respeito aos gostos e jeitos das pessoas à nossa volta. Não tivemos tempo ou clima para falar do 7 de Setembro. Entretanto, houve tempo para meu segundo choque da tarde, o pior de todos. Aquele mesmo garoto de 12 anos, amante da música erudita, músico e intelectual, com trejeitos de um lorde, disse que o “Brasil não vai pra frente por causa dessas palhaçadas (a versão popular do hino).” Nova revolta na turma, momento tenso, até eu queria abrir a cabeça do aluno e enfiar um pouco de respeito e sensatez lá dentro. Por último ele disse que na época da ditadura militar esse tipo de palhaçada não acontecia e as pessoas andavam no trilho. Sem comentários. 

Terceira turma adentra meu campo de observação, inocentes sem saber o que os aguardava. Inocente eu, sem saber o que ouviria e quão revoltante seria o terceiro e último choque do dia. Fui a nocaute. Nem perguntei sobre símbolos nacionais, fui direto ao assunto e perguntei se patriotismo estava relacionado à Copa do Mundo. A grande maioria dos alunos disse que sim. Todos eles concordaram que 7 de Setembro deveria ser uma data importante mas que não se sente o clima de patriotismo no ar. Como nas duas turmas anteriores, essa turma também não identificou honestidade, pagamento correto de impostos, respeito às leis do país, recusa de produtos pirateados ou defesa dos recursos naturais do país como sinais de patriotismo. 

Ah, sim, o nocaute… ao ver a imagem do mastro da bandeira da Praça dos Três Poderes em Brasília, um dos alunos imaginou que a bandeira deveria ser realmente muito grande, achou até que era a maior do mundo, e concluiu que ela deveria ser muito cara. Eu disse que sim… eu não sei o preço, mas realmente deve ser cara. Se há tantas coisas importantes para o governo fazer, questionou o mesmo aluno, “why spend money with this shit?” Nocaute! O árbitro contou até dez. Eu perdi a luta daquela tarde. 

Conclusão: 57 jovens. 57 concordam que os brasileiros são “patriotas” em época de Copa do Mundo de Futebol. 4 ouviram falar sobre Independência do Brasil na escola. 1 participou de um momento cívico. 1 acha que a bandeira brasileira é uma merda. 1 acha que o regime ditatorial militar é melhor do que a democracia brasileira. 1 professor acha que grande parte da juventude brasileira tem valores deturpados e está seguindo um caminho perigoso para si e para o país. 

Conclusão da conclusão: o brasileiro não é um povo patriótico.  

Questionamento a partir da conclusão: aonde vamos parar? 

Marcelo Elias.

Receita… Wednesday, Aug 8 2007 

… para quase explodir seu coração de felicidade.

Ingredientes:

- uma filha de 4 anos;

- uma filha de 2 meses;

- uma esposa amável, paciente e agregadora;

Como preparar?

Engravide e tenha um filha linda. Durante quatro anos, ensine-a a ser amável, carinhosa e atenciosa. Além disso, ensine-a a expressar essas características.

Quatro anos mais tarde, engravide novamente e tenha outra filha linda. Faça sua filha de quatro anos participar de tudo o que acontece com a recém-nascida, ensina a mais velha a cuidar e entender o bebê. Acostume toda a família a compartilhar momentos com a recém-nascida, momentos bons ou ruins. Estimule apropriadamente a mais nova, de acordo com suas capacidades, de acordo com sua idade e de acordo com o meio-ambiente em que a família vive.

A filha mais nova, depois de algumas semanas já está deixando de ser um bebê e começa a responder aos estímulos. Surpreendentemente a irmã de dois meses começa a se expressar e a de quatro anos está muito curiosa. 

Nesse momento, depois de aproximadamente dois meses, reúna a família em torno da filha mais nova e converse normalmente com ela e ensina a mais velha que nenês não são seres idiotas e que temos de falar corretamente para eles assim aprenderem. Depois de alguns minutos de estímulo, a filha de dois meses responderá, com sons e movimentos, aos estímulos a ela apresentados.

Primeiro, a mãe, que a ensina os primeiros segredos da vida, que a estimula inicilamente e que dá o exemplo de bondade, carinho, felicidade, paciência e acolhimento. Depois o pai - babão, orgulhoso, participativo, e que aprendeu o carinho com a esposa – ouve as respostas da filhinha. Finalmente, a filha de quatro anos que aprendeu um monte de coisas com a mãe e um pouquinho com o pai. A irmã mais nova também responde, emite sons, se movimenta, parece que há uma energia lá dentro querendo sair.

Nesse momento seu coração parece que vai sair pelo peito e quando explodir vai contagiar a todos num raio de 20.000km com todo aquele amor que emana da pele daquelas pessoas.

Esse prato rende uma grande porção na hora e várias outras porções todas as vezes que você se lembra daquele momento.

Infelizmente esse momento nunca se repete da mesma maneira, mas outros muito melhores poderão ser preparados conforme passa o tempo… e o melhor, pode ser preparado todos os dias, a qualquer hora.

Marcelo Elias.

Pasárgada e Shangrilá… Friday, Jul 20 2007 

… tornam-se opções? Será que já estão querendo parar o mundo para acharmos uma solução? Seria interessante e sobre isso já cantou a banda Extreme em Stop the world.

Menos pop e mais ficcional, James Hilton já pintou Shangri-la em seu romance Horizontes Perdidos. Depois, o paraíso perdido, fuga desse mundo, foi cantado por Rita Lee.

Finalmente, a fuga mais linda e poética de todas: Manuel Bandeira indo-se embora para Pasárgada.

Acho que já há algum tempo, ir-se embora é uma opção.

Marcelo Elias.

Tragédia… mais uma! Wednesday, Jul 18 2007 

Mais uma tragédia aérea de grandes dimensões em apenas dez meses. Centenas de pessoas mortas e milhares de vidas abaladas. Leia Estadão.com. Leia BBC Brasil. Veja simulação do acidente.

A única coisa que se pode esperar é que a sociedade se organize para exigir das autoridades providências que resolvam os problemas. Espero, também, que as autoridades responsáveis tenham vergonha na cara e façam alguma coisa para evitar mais tragédias.

O pior não é isso… o sistema de transporte terrestre do país também está à beira do caos. Leia JC Online. Estradas ruins, fiscalização precária, serviços lentos… Os índices de acidentes crescem, os prejuízos são enormes e a solução no ano passado foi a operação tapa buracos… piada, né?!

Logo depois do acidente com o avião da Gol no ano passado eu escrevi neste blog que as coisas ainda teriam de piorar para começarem a melhorar. Infelizmente, ainda vemos a situação piorar e não temos possibilidade de solução.

Marcelo Elias.

Junior Achievement e Ética Saturday, Jul 7 2007 

Em meio a tanto desânimo e tantas coisas ruins, sempre encontramos pessoas que lutam por uma sociedade melhor e lutam por ajudar os jovens a se prepararem melhor para o futuro, agindo de forma empreendedora e ética.

Alguém já ouviu falar de Junior Achievement?

“A Junior Achievement é a maior e mais antiga organização de educação prática em economia e negócios, registrando o mais rápido crescimento em todo o mundo.”
“Criada nos Estados Unidos, em 1919, por Horace Moses e Theodore Vail, presidentes da Strathmore Paper Company e da AT&T, respectivamente, é uma fundação educativa sem fins lucrativos, mantida pela iniciativa privada.”
Pois é… visite o site, descubra mais e seja um voluntário. Você também pode visitar o blog Junior Achievement e discutir sobre ética.

Marcelo Elias.

Violentos por natureza? Saturday, Jun 30 2007 

Mais um comentário da série… onde vamos parar?

Nesta semana, no Rio de Janeiro, cinco jovens espancaram a doméstica Sirlei, que esperava o ônibos na parada. Simplesmente pararam o carro, desceram e atacaram a moça. Disseram depois que confundiram a vítima com uma prostituta… por um acaso isso seria razão para espancar uma pessoa? E pior.. cinco rapazes contra uma moça!

Leia e assista sobre o ocorrido.

Além da empregada, os rapazes agrediram outras pessoas na mesma noite e já haviam atacado outras pessoas outras noites. Sempre 5 contra 1 e a maioria mulheres. Sobre outra agressão, eles disseram que confundiram a vítima com uma prostituta… novamente!

Quando ouvi a primeira vez sobre o ocorrido, lembrei-me imediatamente do filme Natural Born Killers (Assassinos por natureza). A história é de Quentin Taratino e a direção de Oliver Stone. Se você ainda não assistiu, você acha que o filme é violento ou não? Será? Com esse título e com esse escritor, só pode, né?

O filme é mais do que simplesmente violência gratuita – assunto para outra oportunidade… ou não -, mas a linha geral da história, de duas pessoas que andam por aí matando, associa-se diretamente à história desses rapazes, que simplesmente saem por aí batendo. Ainda não mataram, mas acho que em um mês, se eles não fossem pegos, alguma vítima acabaria morta.

O importante agora é tentar entender os porquês de esses jovens cometerem tais atos. Rapazes socialmente, economicamente e educacionalmente privilegiados, mas que não conseguiram internalizar as regras de respeito às outras pessoas.

Questionei até que ponto os princípios ensinados pelos pais aos filhos são necessariamente impressos no comportamento dos jovens para o resto de suas vidas. Se, quando crianças, aprendemos a ser honestos, respeitosos – às leis, regras e pessoas – íntegros…, carregaremos essas vitudes pelo resto de nossas vidas? Ou esses ensinamentos são apenas um princípio – 50% – e o restante depende dos elementos que cada um de nós já trazemos de… de… qualquer outro lugar, vida, mente, coração?

Marcelo Elias.

Relaxa e Goza Thursday, Jun 21 2007 

Estamos bem servidos de políticos e gestores políticos de qualidade. Nossa Ministra do Turismo pouco se importa com os absurdos que estão acontecendo nos aeroportos. Até entendo que ela seja originalmente uma sexóloga, mas deveria ter mais responsabilidade ao falar esse tipo de coisa.

Clique aqui e veja uma imagem fantástica de um painel de aeroporto no horário de pico do movimento. Tenho quase certeza de que é uma montagem, mas bem que poderia ser verdade.

Marcelo Elias.

Friday, Jun 8 2007 

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Ou finge a falta de dor

Quando corroído é

Pelo ácido do sofrimento

E parece sempre feliz

 

Não sou poeta, só fingidor

Finjo a não dor

Que o Poeta tanto sente

Talvez um dia…

 

Dor não sentirei ou fingirei

E poeta posso até me tornar

Mas acho que antes disso

Será difícil suportar.

Marcelo Elias.

Next Page »