Mundinho pequeno… Monday, Feb 4 2008 

Novos Mundos

Em 2006 o ex-planeta Plutão foi diminuído para a categoria de planeta anão. Entretanto, vários outros mundos foram descobertos, muito divulgados, mas pouco observados. Atualmente já são muito famosos os tocadores de MP3 e MP4. Alguns MP5 já estão tomando mercado. Alguns desses mundos têm até nomes específicos, como iPod® – ainda subdivididos em outras categorias.

São milhares de mundinhos circulando pelas ruas. Uns mundos musicais, tocando músicas baixadas da internet, outros sintonizados em rádios de música ou notícia – acho que esse último mundo ainda é muito restrito, apesar de crescente. Mundinhos de apenas um habitante, quando muito dois, se alguém quer compartilhar o seu com um colega ao lado, mas só por pouco tempo, tá?

Caminhando, correndo, voando, pedalando, dirigindo, lendo, sentando, trabalhando, assistindo tv, malhando e até conversando. Crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, cachorros, todos já aderiram. Todos com aqueles fiozinhos saindo das golas das camisas, das mochilas e bolsas, dos bolsos das camisas e calças. Companheiros de caminhada que antes conversavam, agora colocam seus fones e caminham lado a lado, mas cada um no seu mundinho.

Algumas pessoas já estão deixando de lado o rádio e cd player do carro e trocando-o por um MP3. Além de portátil, não atrai ladrões. Outro dia num engarrafamento vi um carro com quatro pessoas, pai, mãe, filho e filha. Cada um com seus fones, olhando pela janela mais próxima – exceto o motorista – e viajando em seu próprio mundinho.

Tenho certeza, inclusive, de que alguns utilizam seus fones como desculpa para fingir que não ouvem outras pessoas. Filhos e filhas fingem que não ouvem os pais e mães; esposos e esposas fingem que não ouviram seu cônjuge; alunos não ouvem professores – e vice versa. Você enfia o fonezinho no ouvido, sai andando por aí e faz cara de alienado quando vê aquela pessoa com quem você não quer falar. É como se você não estivesse nesse mundo, mas no seu mundinho particular.

O Fulano de Tal no escritório foi o primeiro a freqüentar seu próprio mundinho. Toda manhã ele chegava e todos o cumprimentavam com Bom dia, Fulano. E ele nada. Isoladão. Depois de duas semanas os colegas do departamento desistiram dos cumprimentos. Um dia, antes de uma reunião com a gerência, o de Tal estava completamente isolado dos outros, ouvindo um trance qualquer. Daí, um dos colegas disse Vocês sabiam que o de Tal está na lista negra da diretoria? Todos fizeram cara de piedade para o Fulano, que obviamente não ouviu nada. Ele imediatamente tirou os fones dos ouvidos e O quê? É alguma coisa comigo? Ninguém respondeu, mas todos passaram a reunião com cara de peninha para o Fulano. Depois disso, ele nunca mais visitou seu mundinho no trabalho.

Acho que num futuro breve a Teoria da Evolução substituirá os cordões umbilicais por cabos de fones de ouvido. Assim, quando os bebês nascerem, o médico vai apenas desconectar os terminais dos cabos de mãe e filho e já plugará o terminal do filho a um tocador qualquer. Os fones já estarão nos lugares dos ouvidos, é claro. Que tal?   

Acho até sadio que cada um já procure seu mundinho, pois quando chegarem à velhice, surdos, eles terão seu próprio mundo e continuarão sem ouvir.

Marcelo Elias

Um povo incrível Sunday, Feb 3 2008 

Um lugar que eu ainda quero visitar é Machu Picchu. Deve ser incrível conhecer pessoalmente o que restou de um povo tão evoluído social e intelectualmente como os Incas. E os Maias e Astecas? Povos fantásticos.

Outro dia li sobre uns tais de Bertos. Eles viveram há aproximadamente 700 anos no arquipélago de Borthoni, entre os Trópicos de Leão e Sagitário. Os restos dessa civilização foram encontrados por uma multinacional que prospectava petróleo e gás na região. Depois que os pesquisadores da empresa constataram que não havia riqueza mineral alguma nas ilhas, entregaram os relatórios com seus achados para a renomada Irwin University, na Escócia.

Segundo os estudos divulgados pelos cientistas da universidade, os Bertos foram um povo de grande organização social, além, é claro, de terem um avançado intelecto. Não se sabe ao certo porque os primeiros habitantes foram parar no conjunto de ilhas, mas encontraram-se edificações bem construídas e grandes áreas com evidência de atividade agro-pecuária.

De acordo com os registros traduzidos pelos lingüistas e as evidências coletadas por arqueólogos e sociólogos, os Bertos tinham uma organização social impecável. Todos sabiam suas funções e as cumpriam diligentemente. Desde criança, todos eram observados, suas habilidades identificadas e posteriormente desenvolvidas e, finalmente, passavam a atuar em sua comunidade.

De acordo com os estudiosos, conhecer os Bertos foi uma tarefa relativamente simples. Os registros escritos sobre todo o desenvolvimento da civilização bertoniana e toda sua organização são abundantes e bem conservados nos prédios das ilhas.

Os escritos mostram que a sociedade bertoniana estava muito bem até que… um grupo de habitantes da ilha resolveu desenvolver a língua falada! Os Bertos existiram por aproximadamente 500 anos e, durante 350 anos, eles não falavam. Essa foi a opção das primeiras famílias desbravadoras que chegaram às ilhas. Os habitantes das Ilhas Berthoni se comunicavam apenas por meio de documentos escritos e por observação das ações de outras pessoas. Estranho? Talvez. Impossível, diriam alguns? Não. Eles viveram bem durante mais de três séculos assim e em apenas 150 anos se extinguiram porque resolveram falar.

Os últimos registros bertonianos mostram que em poucas décadas a sociedade se deteriorou e os registros escritos diminuíram drasticamente. A maioria da população passou a acreditar que simplesmente contando histórias um para o outro, a História do povo se perpetuaria. Além disso, intrigas e fofocas passaram a contaminar as comunidades dos Bertos e muitos se ocupavam mais em saber das vidas alheias do que de seus afazeres.

Outro grande malefício da língua falada foram as conversas entre amigos, casais e pais e filhos. Antes, as ações e os olhares eram as formas de comunicação e o entendimento entre as pessoas era simples, sem necessidades ou excessos de explicações, desculpas ou detalhes. As conversas tornaram as relações mais complicadas porque surgiu a necessidade de se justificar ações ou se justificar as justificativas.

Incrível. Em menos de dois séculos, toda uma civilização extinta. Muitos bertonianos fugiram, outros vários morreram de estresse – muito barulho! -, famílias se acabaram por causa das brigas, mentiras surgiram aos montes… bom, pode-se imaginar todo o resto. 

Visitar Machu Pichu deve ser muito interessante. Quem sabe dar uma passadinha – e ficar – nas Ilhas Berthoni seja um outro destino interessante?

[Atenção - tudo aqui é pura ficção, viu?!]

Marcelo Elias.