Brasília, 7 de setembro de 2007, Dia da Proclamação da Independência do Brasil. Talvez não haja muito o que se comemorar… pelo que eu me lembro das minhas aulas de História, a independência do Brasil foi proclamada por D. Pedro I e aceita pelos colonizadores depois de a colônia pagar 2 milhões de libras esterlinas à Coroa Portuguesa. De onde veio o dinheiro? Empréstimo internacional… o governo Inglês emprestou a grana para o Brasil.
Não vejo nosso país muito independente, não. Viramos colônia de outros países mais desenvolvidos, apesar de termos uma cultura rica e bela. Quando começamos a atingir uma independência macro-econômica, fazemos isso em época de globalização, quando todas as economias do mundo estão irremediavelmente interligadas. Assim, o problema dos caloteiros mutuários americanos afeta nossa bolsa de valores. Eu sei, eu sei… minha análise econo-socio-historico-cultural é superficial e simplista, mas escrevi só para introduzir o assunto que realmente me interessa agora: como os jovens de classes média-alta vêem o 7 de Setembro.
Ontem, em três aulas para turma de adolescentes, fiz um experimento e resolvi falar sobre símbolos nacionais, independência e patriotismo. Cinqüenta e sete jovens, entre 13 e 19 anos passaram pelo laboratório… quero dizer, por minha sala de aula. Meu objetivo principal era iniciar uma discussão acerca dos assuntos e, obviamente, fazer os alunos utilizarem a língua inglesa como ferramenta para essa discussão. No longo e tortuoso processo educacional e de aprendizagem de uma língua, momentos de autêntica expressão oral têm efeito sobre ambas atividades.
O primeiro resultado que observei em todas as turmas foi o fato de que apenas quatro alunos disseram que em suas escolas o assunto Independência do Brasil foi abordado. Em apenas uma escola, o La Salle, na 906 sul, houve um momento cívico. A aluna que lá estuda disse que “ninguém estava nem aí”. Bom, acho que pelo menos a escola fez alguma coisa.
Na primeira turma, de nível intermediário/avançado, os sujeitos têm entre 14 e 17 anos e são todos matriculados no ensino médio de escolas privadas em Brasília. Os alunos entraram em sala ao som do Hino Nacional Brasileiro executado pelo conjunto musical Casa de Farinha. Uma batida brasileiríssima com as belas vozes femininas do conjunto. Todos reconheceram a música – ufa! Primeiro teste ok. Projetei no quadro uma bela foto em close de um rosto feminino pintado de verde, com um losango amarelo ao redor de um olho profundamente azul.
Em seguida projetei uma frase a que os alunos tinham de concordar ou não e justificar sua resposta: “Conheço os símbolos nacionais, entendo-os e respeito-os.” Meu primeiro choque da tarde… olhos de interrogação e a pergunta oculta… quais são os símbolos nacionais? Depois disso, o que eu esperava aconteceu, nenhum aluno se importava verdadeiramente com a data, nenhum iria à parada militar na Esplanada, nenhum aluno participava regularmente de qualquer ato cívico. Outra constatação esperada foi o fato de que os alunos vêem o patriotismo como uma característica importante de povos de países de primeiro mundo, mas esses mesmos alunos e suas famílias não demonstram qualquer sentimento patriótico em seu cotidiano, só de quatro em quatro anos, 2006, 2002, 1998, 1994… Esse fenômeno acontecerá novamente em 2010.
Segunda turma, todos ensino fundamental, todos escolas privadas, todos entre 12 ou 13 anos, mas um aluno se destacou. Ao ouvir a versão Casa de Farinha do hino, o rapaz surtou, deu chilique, pulou na cadeira, fez cara feia, xingou. Literalmente ele fez tudo isso. Esse aluno é amante da música clássica e repudia qualquer, verdadeiramente qualquer estilo popular de música. MPB, axé, hip-hop, funk, rock (todos), rap, disco, trance ou qualquer outro estilo popular é lixo para esse rapaz. Bom, o material para a discussão estava ali posto diante de mim. Completamente inesperado, mas riquíssimo. Os outros alunos se revoltaram com a reação do colega, afinal a expressão musical deve ser livre e, segundo eles – e eu concordo – a versão popular do hino torna-o muito mais próximo da população.
Falamos de diferenças, da necessidade de respeito aos gostos e jeitos das pessoas à nossa volta. Não tivemos tempo ou clima para falar do 7 de Setembro. Entretanto, houve tempo para meu segundo choque da tarde, o pior de todos. Aquele mesmo garoto de 12 anos, amante da música erudita, músico e intelectual, com trejeitos de um lorde, disse que o “Brasil não vai pra frente por causa dessas palhaçadas (a versão popular do hino).” Nova revolta na turma, momento tenso, até eu queria abrir a cabeça do aluno e enfiar um pouco de respeito e sensatez lá dentro. Por último ele disse que na época da ditadura militar esse tipo de palhaçada não acontecia e as pessoas andavam no trilho. Sem comentários.
Terceira turma adentra meu campo de observação, inocentes sem saber o que os aguardava. Inocente eu, sem saber o que ouviria e quão revoltante seria o terceiro e último choque do dia. Fui a nocaute. Nem perguntei sobre símbolos nacionais, fui direto ao assunto e perguntei se patriotismo estava relacionado à Copa do Mundo. A grande maioria dos alunos disse que sim. Todos eles concordaram que 7 de Setembro deveria ser uma data importante mas que não se sente o clima de patriotismo no ar. Como nas duas turmas anteriores, essa turma também não identificou honestidade, pagamento correto de impostos, respeito às leis do país, recusa de produtos pirateados ou defesa dos recursos naturais do país como sinais de patriotismo.
Ah, sim, o nocaute… ao ver a imagem do mastro da bandeira da Praça dos Três Poderes em Brasília, um dos alunos imaginou que a bandeira deveria ser realmente muito grande, achou até que era a maior do mundo, e concluiu que ela deveria ser muito cara. Eu disse que sim… eu não sei o preço, mas realmente deve ser cara. Se há tantas coisas importantes para o governo fazer, questionou o mesmo aluno, “why spend money with this shit?” Nocaute! O árbitro contou até dez. Eu perdi a luta daquela tarde.
Conclusão: 57 jovens. 57 concordam que os brasileiros são “patriotas” em época de Copa do Mundo de Futebol. 4 ouviram falar sobre Independência do Brasil na escola. 1 participou de um momento cívico. 1 acha que a bandeira brasileira é uma merda. 1 acha que o regime ditatorial militar é melhor do que a democracia brasileira. 1 professor acha que grande parte da juventude brasileira tem valores deturpados e está seguindo um caminho perigoso para si e para o país.
Conclusão da conclusão: o brasileiro não é um povo patriótico.
Questionamento a partir da conclusão: aonde vamos parar?
Marcelo Elias.